Calibre .38

Gladson ameaça contra-atacar com CPIs, esquecido que prometeu auditar as contas do governo do antecessor

Surfista bronzedo

O governador Gladson Cameli (Progressistas) venceu as eleições de outubro passado, em primeiro turno, sobre uma prancha de surfe em que deslizou, tranquilamente, sobre a gigantesca onda antipetista – sendo que esta acabou por cair sobre os companheiros como um tsunami de água fria.

Contramaré

Durante a campanha eleitoral, Gladson firmou compromisso com e eleitorado de encomendar uma auditoria nas contas do governo anterior, mas arrefeceu os ânimos tão logo assumiu o mandato. Prometeu acabar com a aposentadoria dos ex-governadores – agora, sempre que fala sobre o assunto, é para protelar a definição. Prometeu despetizar o governo e entregou setores inteiros aos adversários, como os que compõem a Saúde Pública. Prometeu ainda enxugar a máquina estatal, diminuindo os cargos em comissão – e o fez! Mas para desespero dos aliados, que tanto trabalharam por sua vitória, beneficiou dezenas de companheiros, em detrimento daqueles.

Enigma

Não se sabe ao certo por que a bancada de apoio de Gladson Cameli na Assembleia Legislativa do Estado (Aleac) tem manobrado além dos limites estabelecidos pelo regimento interno da Casa na tentativa de frear a instalação da CPI da Energisa – empresa que arrematou em leilão (pela bagatela de R$ 50 mil) o patrimônio da extinta Eletroacre.

Desarticulado

A desorganização política do atual governo é notória, mesmo com a nomeação de dois secretários extraordinários (o ex-prefeito de Cruzeiro do Sul Vagner Sales, do MDB, e o ex-deputado estadual e candidato derrotado ao Senado pelo PT, Ney Amorim) para cumprirem o papel de mediadores com o Parlamento Estadual.

Noves-fora: 11!

Com 13 assinaturas no requerimento que pede a abertura da CPI da Energisa, as contas não batem: o governo, em tese, deveria ter pelo menos 18 deputados em sua base de apoio – contando com os que já desembarcaram na nova gestão: Luiz Tchê (PDT), Dra. Juliana (PRB) e Josa da Farmácia (Podemos).

Camisa nova  

Esses três, por sinal, subscreveram o requerimento de autoria de Jenilson Leite (PCdoB), mas voltaram atrás, junto com Antônia Sales (MDB), José Bestene (Progressistas) e – pasme o leitor! – Manoel Moraes (PSB).

Nossos Silvério dos Reis…

A propósito, neste domingo (21), foi Dia de Tiradentes, data alusiva à figura do mártir da Inconfidência Mineira e herói nacional Joaquim José da Silva Xavier. Sua luta pela independência de Minas Gerais do domínio dos portugueses o levou à forca em 21 de abril de 1792, graças à delação de Joaquim Silvério dos Reis – nome que em nosso meio virou sinônimo de traidor.

Passo atrás

Foram seis, portanto, os deputados estaduais que assinaram o requerimento para a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito e depois mudaram de ideia: Doutora Juliana (PRB), Manoel Morais (PSB), Luiz Tchê (PDT), Antônia Sales (MDB), José Bestene (Progressistas) e Josa da Farmácia (Podemos).

Soneto da tragédia

Com as 13 assinaturas no pedido de CPI, armou-se o picadeiro no qual a Mesa Diretora da Aleac tentou todas as manobras possíveis – e também as imponderáveis – para sufocar a comissão. A emenda, porém, saiu pior que o soneto.

Questão do milhão

Derrotados, os governistas têm sido alvo de uma avalanche de críticas nas redes sociais. Mas a pergunta que vale 1 milhão de reais permanece a mesma: quais interesses existem, afinal, por trás de tanto esforço vão por parte de Cameli em abafar as investigações na Energisa?

Equação simples

Gladson – que dias atrás propalou aos quatro ventos que reduziria o Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) do querosene de aviação para as grandes companhias aéreas que operam no Acre – pode nos dar uma resposta terminativa sobre os boatos segundo os quais sua família mantém negócios com a holding que comprou, a preço de banana, a Eletroacre.

Sugestão da coluna

Para isso, bastaria que reduzisse, também, o ICMS da energia elétrica, que os governos do PT, desde Jorge Viana, elevaram para 25% – mas que da forma como é cobrado, nos tem tungado em 33% do valor total da fatura.

Rir é o melhor remédio

A fanfarronice supostamente alardeada sobre a entrada em cena do vice-governador Major Rocha (PSDB) terá como resultado o pedido de instauração de outras três CPIs. É de fazer rir os mais casmurros dos mortais.

O vingador

Segundo essa informação, em retaliação aos opositores, a base governista haverá de protocolar, nos próximos dias, três pedidos de investigação: no Depasa, no Huerb e na Anac (que passou a gerir, ainda na gestão de Tião Viana, a Peixes da Amazônia, a Zona de Processamento de Exportação, a Fábrica de Tacos e a antiga Natex).

Fala sério, Rocha!

A ironia dessa história reside em dois fatores cruciais: o primeiro é que os dois deputados estaduais do partido de Rocha, Luiz Gonzaga e Sargento Cadmiel, assinaram o pedido de investigação da Energisa. O segundo é que a falida Natex, e atual Indústria de Produtos de Látex da Amazônia S.A, está prestes a fechar as portas. Isso porque os valores relativos à produção de 10,3 milhões de preservativos entregues aos Ministério da Saúde, e repassados ao governo de Cameli, ainda não pingaram na conta dos empresários que assumiram o empreendimento em Xapuri – conforme revelamos em reportagem exclusiva (leia aqui) do Diário do Acre.

Haja picardia!

Há um terceiro fator ainda mais satírico na ameaça palaciana: só após sofrer uma derrota vexatória na Aleac, a quase 120 dias do início do seu governo, Gladson, enfim, decide cumprir aquilo que nos prometeu em campanha…

Calma, valente

Pra piorar, o anúncio supostamente feito por Cameli de que daqui por diante “quem for da base do governo será tratado como base pelo governo e quem for oposição ou integrar o grupo dos chamados ‘independentes’ será tratado como adversário” soa como mais uma das muitas bravatas de Sua Excelência.

Reino animal

Gladson não apenas se mostra incapaz de controlar as crises políticas, como tem por hábito rugir como um leão para em seguida bramir como uma saltitante e assustadiça gazela.